4 estrelas,  livros,  Resenha

Uma delicada coleção de ausências – Aline Bei

Sabe aqueles livros em que você entra sem esperar muita coisa?

Fazia muito tempo que eu não lia um romance nesse ritmo mais silencioso, mais íntimo, desses que não dependem de grandes acontecimentos para te prender. E, de repente, eu me vi ali: não exatamente acompanhando uma trama cheia de viradas, mas observando a vida acontecer dentro de uma casa. Observando gestos pequenos, silêncios, ausências, mágoas antigas e afetos que nem sempre sabem se expressar.

Uma Delicada Coleção de Ausências, da Aline Bei, é uma história sobre três mulheres de três gerações: Laura, Margarida e Filipa. Bisneta, avó e bisavó dividindo o mesmo teto, mas também dividindo marcas muito profundas. Cada uma carrega suas faltas, suas dores e suas formas meio tortas de continuar existindo.

A história começa com Laura, uma menina que vive com a avó Margarida. As duas têm uma rotina simples, íntima, construída com cuidado. Margarida sustenta a casa lendo mãos em uma feira de antiguidades e dedica sua vida à criação da neta. Mas tudo muda quando Filipa, mãe de Margarida e bisavó de Laura, perde o lugar onde morava e passa a viver com elas.

A chegada de Filipa desorganiza a casa. Laura perde um pouco da atenção da avó. Margarida passa a carregar o peso dos cuidados com a mãe. E Filipa chega como uma presença difícil, amarga, cheia de memórias e ausências não resolvidas.

O mais bonito é que o livro não precisa gritar para doer. Ele vai se instalando devagar. É uma história simples, quase cotidiana, mas cheia de camadas. Um romance sobre maternidade, envelhecimento, solidão, memória e sobre aquilo que fica quando alguém, de alguma forma, não esteve ou não pôde estar.

Aline Bei tem uma escrita muito delicada, quase poética, mas sem perder a fluidez. É o tipo de livro que você lê com prazer, mesmo quando ele encosta em lugares sensíveis. Parece que a narrativa vai andando baixinho, e quando você percebe, já está completamente dentro daquela casa, tentando entender aquelas mulheres, suas escolhas, seus silêncios e suas formas de sobreviver.

Para mim, foi uma leitura sobre ausência, mas também sobre resistência. Sobre como algumas dores atravessam gerações. Sobre como o afeto nem sempre vem bonito, organizado ou fácil. E sobre como, mesmo nas casas cheias de silêncio, ainda existe vida tentando seguir.

Eu recomendo muito Uma Delicada Coleção de Ausências como um romance de cabeceira, desses para deixar ao lado da cama e ler um pouco antes de dormir. Não é uma história de grandes acontecimentos, mas de presença silenciosa, daquelas que vão entrando devagar na gente. É um livro para acompanhar com calma, algumas páginas por noite, deixando que as palavras da Aline Bei façam companhia antes do sono. Um romance delicado, íntimo e cheio de camadas, perfeito para quem gosta de leituras que acolhem, emocionam e ficam ecoando baixinho depois que a gente fecha o livro.

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